segunda-feira, 19 de julho de 2021

Você é quem você é, não quem deseja ser

Surgida na França no século XIX e criada pelo francês Augusto Comte, o positivismo era inicialmente um pensamento filosófico e social que valorizava a humanidade e carregava consigo o seguinte lema: "O Amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim".  No Brasil, a doutrina foi rapidamente disseminada em instituições como a Escola Militar e a Escola Politécnica durante a segunda metade do século XIX, na então capital Rio de Janeiro. Intelectuais e personagens com forte participação no meio político e militar contribuíram para a divulgação desse pensamento, que ganhou terreno, em um país, que não tinha um pensamento social consolidado.

Comte, ao falar dos operários, diz na Terceira Parte do " Discurso sobre o espírito positivo" que através da filosofia positiva a massa trabalhadora "predispõem a perceber que a felicidade real é compatível com todas e quaisquer condições, desde que sejam desempenhadas com honra e aceitas convenientemente". Acrescenta adianta que "a natureza de nossa civilização impede evidentemente os proletários de esperar e até mesmo desejar alguma participação importante no poder político propriamente dito". Ou seja, para o líder do movimento positivista, a classe base somente necessita de condições básicas para sua sobrevivência e procriação, não podendo ter aspirações além das inerentes a sua classe, não havendo mobilidade alguma e possibilidade de mudança.

Quase 200 anos depois da publicação de sua obra, suas ideias continuam presentes em nosso governo. O Ministro da Economia Paulo Guedes, durante uma entrevista na qual comentava sobre a alta do dólar, em fevereiro de 2020, disse a seguinte frase: "Todo mundo indo para a Disneylândia, empregada doméstica indo para a Disneylândia, uma festa danada. Pera aí. Vai passear em Foz do Iguaçú, vai passear ali no Nordeste, está cheio de praia bonita". Guedes replica as ideias de quase dois séculos atrás, ao dizer que as aspirações das pessoas devem ser as mesmas que o Estado deseja para a classe a qual pertence, excluindo as aspirações pessoais. Ainda revela enorme desconhecimento sobre a realidade econômica brasileira, como se fosse possível viajar para o exterior, ou para qualquer lugar, recebendo um salário de mil e cem reais mensais, realidade da maioria das empregadas domésticas. Esqueceram do Amor e do Progresso e retiveram somente a Ordem.

João Victor Vedovelli Zago - Matutino

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